domingo, abril 27, 2008

Experiência XI

- Lembras-te da primeira vez que viemos aqui?

Ele não responde, parece algo perdido, distante. Ela simplesmente sorri, não olha para Ele, fixando-se no luar que atravessa a longa planície onde estão. As ervas dançam ao sabor do vento, sem se cansarem, soltando o pólen no ar. Os pirilampos passam pelo campo, procurando uma nova casa. Para além deles, não há mais nada.

- Sempre quis voltar aqui.

- Tive saudades tuas.

Ela volta a sorrir, olha para Ele, que também sorri. Ela deita-se na relva, o luar ilumina todo o campo, as flores dão-lhe a cor que sempre desejaram. Ela fecha os olhos, descansada, sem quaisquer preocupações. Ele olha para o céu, as nuvens começam-se a formar. Ao fundo, para além do luar, luzes azuis preenchem os céus. Um azul claro, como holofotes. O luar continua presente, mais brilhante, apenas com as suas silhuetas presentes.

- Temos de ir.

Ela abre os olhos, olha para Ele, iluminado pelo luar e as luzes claras. Vê o seu rosto, sorri. Estende a mão, ajudando-a a levantar-se. Agarra-a, abraça-a, fica com ela nos seus braços. O vento aumenta, a sua gabardina voa com o vento, tal como o seu vestido. Apenas eles e o luar, cada vez mais distante.

- Eu sabia que voltavas.

Os dois ficam abraçados, até que ouvimos uma sirene ao longe. As luzes azuis, os pirilampos e o luar desaparecem lentamente, dando lugar ao vermelho do fogo. Para além do luar, as silhuetas da destruição, prédios caídos. Não ouvimos nada, só a sirene. Ele olha para o céu, as nuvens fazem um círculo por cima deles. Ele agarra-a com mais força, protege-a do medo.

- Não olhes para mais nada. Eu estou aqui, vai correr tudo bem.

Das suas costas nascem asas, as penas brancas soltam-se, preenchendo o campo anteriormente verde. Levantam voo, só eles os dois, deixando para trás o vermelho da destruição. O céu volta a ser azul, à medida que as penas brancas se espalham. Das cidades, outros voam em direcção às nuvens. As asas brancas preenchem o céu, todos se afastam das cidades destruídas, vazias, toda a devastação fica para trás como uma má memória. Só eles os dois se abraçam, só isso lhes interessa. Ficarão assim para sempre, dançando no céu azul…no seu paraíso.

Etiquetas:

domingo, fevereiro 10, 2008

Experiência X

Antes do texto, queria só dizer que esta nova "Experiência" é maior do que as outras, simplesmente porque é uma experiência e quis escrever algo mais descritivo e sem muita piada, ao contrário do que fiz (ou tentei fazer) em algumas partes desta possível série de textos. Algo mais sério e seco, e que, vai-se lá saber porquê, calha mesmo na edição X (dez, por favor), do "Experiência". Estou a escrever isto como um apelo para o lerem até ao fim, já que é um bocado grande e eu partilho a vossa possível dor de ler coisas enormes em blogs. Eu sei, é estúpido, mas aconteceu.

---------------------------------------------------------------------------------------

Um grupo de homens junta-se numa pequena trincheira. Mesmo sendo noite, os clarões das bombas que caem iluminam os céus com cores que não viam há meses. Um duro Inverno apoderou-se das terras onde lutam, deixando-os cada vez mais fracos, e sem esperanças de que a sua luta algum dia terá final. A única coisa que sabem, é que quem sai daquela trincheira nunca mais regressa, e eles são os últimos.
A trincheira parece ser cada vez mais pequena à medida que o medo aumenta. O som dos tiros não desaparece há mais de três dias, como se chamasse por eles, como se não fosse possível fugir. Por mais pequena que seja aquela trincheira, é a única coisa que resta aos 6 soldados. Não sabem quem são, nunca se viram, e mesmo que o tenham feito, não tiveram o tempo necessário para falar sobre outra coisa qualquer do que sobreviver. A falta de contacto humano faz com que se afastem uns dos outros, perdidos, sem mais nada.
O som dos tiros continua. Um deles tenta subir a trincheira para tentar ver o que se passa para além do buraco sujo onde estão.

- Espera pela manha.

- Que diferença é que isso faz?

O soldado mais afastado mantém-se calado, desvia o olhar.

- Ele tem razão.

O soldado mais próximo aproxima-se do nome que tenta subir.

- Não sabes o que está lá fora, espera pela luz.

O céu ilumina-se com mais uma explosão, cada vez mais próxima.

- Acho que temos toda a luz que precisamos.

O soldado afasta-se, encosta-se novamente à parede de lama. Os outros ficam em silêncio, cada um no seu pequeno espaço. O soldado continua a subir a trincheira, cada vez mais lento, cada vez mais perto da saída, cada vez mais nervoso e inseguro. A sua mão direita toca finalmente na superfície do terreno de combate, só faltando ver, com os seus próprios olhos, aquilo que espera o grupo de soldados quando saírem da trincheira. A mão treme cada vez mais, quase não a conseguindo controlar, tenta respirar, mas não consegue. O coração bate como se fosse todas as bombas que quase acertam na trincheira, cada vez mais rápido, sem parar, não o deixando descansar. Os olhos quase fecham, treme, transpira, até que se deixa cair, escorrega na lama, caindo novamente no chão da trincheira suja. Respira de uma forma ofegante, derrotado pelo seu próprio medo.
O soldado mais afastado volta a olhar para o pobre soldado derrotado. Todos os outros continuam em silêncio, paralisados.

- Qualquer um deles faria o mesmo que nós.

- Sim, mas nenhum deles ficou cá.

Os soldados ficam novamente em silêncio. O soldado cansado, amedrontado, tinha-lhes apontado o dedo. Todos os outros que ali estiveram, companheiros ou amigos, saíram e lutaram, todos menos eles, restos de companhias que nunca conseguiram ver o que estava para além daquele local supostamente seguro. Jogar pelo seguro quando não há mais nada para jogar, simplesmente ver o resto do mundo andar, até que haja uma ruptura e possam reentrar no jogo. Contudo, derrotados já eles estavam, e todas as palavras que possam cuspir naquele momento perdem todo o seu significado quando ficam ali simplesmente parados. “Esperemos pela manha, pela luz, pelo próximo dia”. Nunca haverá esse dia, e eles sabem-no.
Passaram mais dois dias, e as bombas finalmente pararam de cair. Os tiros simplesmente caíram e deixaram-se ficar calados, o silêncio apoderou-se daquele inferno. Já não existiam gritos, nem corpos que caiam nas águas ensanguentadas do terreno de combate, só conseguíam ouvir o vento frio. Perturbados pelo silêncio, cada um dos 6 soldados foi acordando, admirados pela beleza do silêncio, há tanto tempo desejado. Cada um deles, lentamente, começou a sorrir, até que não conseguíram aguentar os risos de alegria. Tinham sobrevivido, e poderiam finalmente sair daquele buraco nojento. Por entre as nuvens negras, o novo dia surgiu, um Sol amarelo, alegre e quente, que os tinha abandonado durante a batalha. Agora sabiam que estavam salvos, era tempo de saírem.
Pela primeira vez, conseguíam ver as caras dos seus companheiros, sorriam e depois abraçaram-se. Companheiros de guerra, os verdadeiros heróis e sobreviventes. Ao longe, mesmo quando iam a subir, ouviram um tiro, seguído de outro, secos, rápidos. Deixaram-se cair, prepararam as suas armas e esperaram. Os tiros iam ficando mais próximos, conseguíam ouvir alguém falar e passos. Aproximam-se cada vez mais, alguns passos passam a muitos passos, e aquelas pequenas palavras a frases. O inimigo aproxima-se, até que os olha da entrada da trincheira. Um grupo de homens, armas na mão, máscaras de gás na cara, olham para eles. Não dizem nada, simplesmente olham, bloqueando as suas saídas. Têm medo, à medida que os homens olham uns para os outros e tentam preparar as suas armas, mas elas simplesmente não funcionam. O grupo de homens aponta-lhes as armas e disparam para o buraco, sem piedade, sem parar, até que não reste quase nada daqueles 6 soldados. Quando se sentem satisfeitos, afastam-se do buraco, deixando os restos a apodrecer.
O grupo de homens afasta-se lentamente do buraco, um longo terreno destruído levanta-se à sua frente, inúmeros soldados feridos, pedindo ajuda, e eles, uma a um, vão matando-os. Executam os derrotados, não existem prisioneiros. Do outro lado do terreno, o General olha para o terreno destruído e para as tropas inimigas derrotadas. Respira fundo, solta um sorriso sincero. Ao seu lado, um soldado raso, sem máscara. Abraça-o, todos os outros soldados batem palmas. Emocionado, olha para as suas tropas.

- Este é um novo dia, aproveitem-no!

Etiquetas:

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Experiência XI

- Tu sabes quando é que as pessoas estão bem ou mal?

- Não costumo saber.

- Nem eu.

Os dois ficam em silêncio durante algum tempo. Já é tarde, o luar preenche todo o vazio à volta deles, há uma festa ao longe.

- A minha mulher quer-se divorciar de mim.

Os sons da festa vão aumentando, todos cantam. O jardim vai ficando mais iluminado.

- Diz que eu não a percebo.

- Elas dizem sempre o mesmo.

Uma música qualquer dos anos 80 começa a dar no rádio, um enorme grito de alegria e recomeçam a cantar.

- O que me chateia, é que isto é a minha festa de noivado.

Etiquetas:

sexta-feira, novembro 30, 2007

Experiência X

Dois amigos estão deitados na relva verde de um jardim. Um dia de Primavera, uma doce brisa percorre os seus narizes, as crianças brincam ao longe e as suas mães sorriem, os velhotes jogam às cartas. E eles estão meio mocados...

- Man, sabes do que é que eu tenho medo?

- Do quê?

- De me esquecer que estou a pensar.

- O quê?

- Man, de pensar. Tipo, vais a pensar nas tuas cenas, para ti, e depois esqueces-te que estás a falar para ti e começas a falar alto.

- Isso era do caraças. Parecia que estavas a ficar maluco.

- E se eu estiver a ficar maluco?

- Conforme aquilo que tu penses, man.

- Ya, meu. Lá nisso tens razão.

Os dois voltam a ficar em silêncio. Olham para o céu azul e as nuvens brancas que se vão juntando ao seu lado. Lentamente formam a frase "O Fim do Mundo é Amanha, mas podem sempre aproveitar o tempo que têm para fazerem o que quiserem. Beijos, Deus". Não ligam muito.

- E os mudos?

- O que têm os mudos?

- Como é que eles falam sem pensar para eles próprios?

- Só porque não falam?

- Ya... acho que não estão muito preocupados se as pessoas olham para as mãos deles a abanar. Não vão perceber nada à mesma.

- Deve ser fixe.

- Podias dizer tudo o que querias.

- Mas sem dizer.

Os dois começam-se a rir. As nuvens formam-se novamente. "Eu não estava a brincar, vai ser mesmo amanha que o Mundo acaba. Isso não vos interessa?"

- Eu gostava de ser mudo, meu. Deve ser uma experiência do caraças.

- Deve ser de outro mundo...

- Para além disso, eles não se enganam enquanto falam.

- As pessoas mais correctas do mundo não falam. Do caraças.

- Do caraças.

Algo começa a cair dos seus céus.

- Acho que vai chover.

- É possível. Abril águas mil, sabes?

Os dois continuam a rir, até que inúmeras bombas caem sobre a terra, destruindo o jardim onde estavam. O fim do mundo foi naquele dia, e sim, Deus enganou-se.

Etiquetas:

domingo, outubro 28, 2007

Experiência IX

- O que eu gostava que me acontecesse?

- Sim, porra.

Carl começa a pensar sobre aquilo que mais gostava que acontecesse na sua vida. Bebe mais um bocado da sua cerveja. Esboça um sorriso.

- Gostava de encontrar fotografias na internet, de uma gaja que eu conhecesse, completamente nua ou a foder.

Paul quase que cospe a cerveja.

- Estás a brincar?

- Não, estou a falar muito a sério.

- Eu sempre soube que eras doente, mas nunca pensei que...

- (interrompendo) Imagina só, uma rapariga que tu vês todos os dias e que todos os momentos que estás com ela, são para a despir com os olhos, imaginá-la nua ou sei lá mais o quê.

Paul não responde, focando o seu olhar na cerveja, demasiado envergonhado com a conversa do seu amigo.

- Agora pensa só no que poderias fazer se chegasses a casa, fosses a um fórum quaqluer e visses essa mesma gaja toda nua! Era genial! Sempre que ela falasse contigo, tu só pensavas “Porca, já te vi nua.” E se ela algum dia te rejeitasse, dizias “Sim, mas tu é que és a porca nesta conversa, não eu.”

Ficam os dois em silêncio. Carl acaba a cerveja.

- A vida seria muito melhor se isso acontecesse. (olhando para Paul) E tu, o que gostavas que acontecesse na tua vida?

- Depois de ouvir a tua resposta, a minha não faz muito sentido...

- Vá lá, meu. Não sejas um maricas, conta lá.

- Epá...ia dizer que gostava de ser aumentado para pedir a Susanne em casamento.

- Ah...

- Pois, não tem nada a ver com a tua.

- Sim, não é muito interessante. Tens de começar a olhar mais para dentro de ti.

- (irónico) Como tu fazes?

- Nem mais, eu não tenho problemas. Eu quero fotografias das minhas colegas de trabalho completamente nuas para as chantagear!

Paul olha para o relógio, procurando uma desculpa.

- Bem, tenho de ir. Vou jantar com a Susanne.

- Já vais?

- Sim, combinamos para outra altura.

- Vai lá, “lover boy.”

Carl fica sozinho no bar. Acaba a segunda cerveja enquanto vê um jogo qualquer na televisão, e decide ir para a casa mais cedo. Já em casa, mete-se na cama e provoca a mulher para uma noite de sexo. Enquanto a mulher se começa a despir, Carl prepara a camera e filma tudo.


- Querida, vais ser tão usada amanha...

Etiquetas:

quinta-feira, setembro 20, 2007

Experiência VIII

- Das duas uma, ou temos o Inverno mais quente ou temos o “Verão” mais frio de sempre...

- O tempo anda esquisito, qualquer dia nem estações do ano temos.

- É exactamente disso que eu estou a falar! As pessoas preocupam-se tanto com essas tretas das florestas e o caraças, mas não há nada que melhore.

- Mais vale lixar logo tudo de uma vez e depois logo se vê.

- Claro, não que nós deixemos cá alguém a sofrer com os nossos erros.

Frank e Steve sorriem, dando os últimos retoques nas suas máscaras de palhaçoes. Depois de vários empregos falhados, Frank decidiu ajudar o seu amigo no seu mais precioso sonho: ser palhaço em festas para crianças. Como não tinha muito mais na vida, Frank deixou-se simplesmente ser palhaço.

- Estás preparado?

Frank olha-se ao espelho, ajustando o batôn.

- Deixa-me arranjar os lábios e meter mais pó-de-talco. A ver se disfarça a ressaca.

- Temos de começar a ir menos vezes ao Joe’s.

- Isso é o que nós dizemos todas as noites, mas...o que há mais? Um trabalho de 8 horas e uma mulher em casa?

Steve parece um pouco mais abatido, perdido em alguma das suas memórias.

- Não digo isso...apenas quebrar a rotina...beber e entreter putos que nem gostam de nós.

Frank aproxima-se de Steve e dá-lhe uma palmada reconfortante nas costas.

- É aquilo que nós escolhemos, só temos é de a viver.

Steve parece compreender, ou pelo menos querer compreender o que poderá Frank estar a sentir. Na verdade, Frank não escolheu rigorosamente nada, deixando-se levar pela sua maldita vontade, acabando nas piores situações possiveis. Ao menos com Steve, sabia que existiria alguém tão mau quanto ele.

- Qual é o número que utilizamos hoje?

- Epá, vamos para um mais calmo. Está-me a doer a cabeça e quero-me mexer pouco.

- Balões em forma de animais?

- Só se tu atares a porcaria dos balões.

- Está bem...(suspira). Vamos a isto.

Steve empurra a porta de um dos roupeiros da casa e saem completamente alegres para entreterem as crianças, que, com a sua chegada, soltam enormes gargalhadas que ecoam pela casa, fazendo-se ouvir por todo o bairro. As crianças estão felizes, mas eles não e isso era algo com que eles teriam de viver para sempre.
Após a festa, Frank e Steve acabam por voltar ao Joe’s. Tanto um como o outro, tem uma caneca de cerveja na mão, um olhar vazio e um enorme silêncio. O bar está praticamente vazio e o empregado anda a limpar o chão. Frank parece estar bêbado.

- Sabes o que é que dizem que é mais importante?

Steve leva a caneca à boca.

- A beleza interior. Sabes o que isso é? Aquelas tretas todas sobre o quanto tu podes ser belo se fores uma boa pessoa...

Steve olha para Frank, que continua com um olhar meio perdido enquanto vai falando.

- Não acreditas nisso?

- Isso não interessa, lá se tu acreditas ou não, não vai fazer com que os outros acreditem. Sabes o que são desculpas? É isso que aquilo é.

Frank bebe o resto da cerveja.

- Se tu és feio, vais sempre pensar que és uma pessoa bonita no interior, porque nunca ninguém te dá a hipótese de mostrares realmente quem és. E por isso mesmo, sonhas por uma princesa qualquer que um dia olhe para ti e dia, “Uau, aquele monte de merda deve ser mesmo uma pessoa mesmo bela, mesmo lá no fundo.”

Frank pousa a caneca.

- Tretas.

Steve desvia o olhar de Frank, fica meio perturbado com toda aquela conversa. Olha para o resto da cerveja, mas põe a caneca de lado.

- Elas só querem saber como tu és cá fora, mais nada. E é com isso que nós temos de viver.

- Acho que nos temos de viver com muitas mais coisas.

Frank sorri.

- Por isso mesmo é que vamos ser sempre os mais belos deste bar, ou lá no que quisermos acreditar.

Steve dá uma palmada nas costas de Frank.

- Que isso seja um bom motivo para continuarmos a vir aqui todas as noites, sem problemas.

- Ámen.

Etiquetas:

quarta-feira, setembro 05, 2007

Experiência VII

- Temos aqui um grave problema.

André dá voltas à mesa, olhando para Rui.

- Há aqui uma enorme falta de confiança, que eu simplesmente não percebo.

Rui levanta-se rapidamente da cadeira, aproxima-se de André de uma forma ameaçadora. Agarra a sua mão, prendendo-o a si.

- O que há aqui é insegurança, nada mais.

André fica atordoado, talvez porque aquilo que Rui diz ser verdade ou pelo simples facto de não ser mais que um comum cobarde a tentar ser corajoso.

- Tu sabes que eu tenho razão. Deixa-te destes números idiotas e tentar fazer qualquer coisa antes que seja tarde.

André parece cada vez mais abatido e acaba por deixar descair o corpo. Senta-se no chão, não olhando para Rui.

- Só não quero que tu me deixes aqui sozinho, nada mais. Quero (faz uma pausa), que volte tudo ao normal, aos tempos em que éramos só os dois a correr pelos campos, a jogar à bola ou ainda a passear pela grande cidade quando podíamos...

Rui também se senta no chão, mesmo ao lado de André.

- Onde é que estão esses tempos? Parece que tudo desapareceu com a suave, mas cruel brisa do Árctico...

André esconde a cara entre as pernas, talvez para chorar ou talvez para reflectir sobre a passagem do tempo e das nossas vidas. Rui, em silêncio, abraça-o, deixando cair uma pequena lágrima.

- Mesmo que as nossas vidas tenham mudado, tu farás sempre parte de mim e eu farei sempre parte de ti. A ligação que temos será sempre mais forte que qualquer canto das Sirenes, ou dos perigos do crescimento humano. Eu e tu somos amigo, e nada poderá mudar isso.

André levanta a cabeça, Rui sorri. Os dois voltam-se a abraçar, fechando, assim, todos os problemas que a sua amizade poderia ter. Agora eram novamente amigos e isso poderia levá-los a qualquer sitio, sem problemas. Rui levanta-se, ajudando André.

- Bem, temos de sair daqui antes que...

E uma enorme onda de água entra pela porta da direita, levando os dois amigos, cada um para seu lado. Perdidos nas águas frias, tentam reencontrar as suas mãos quentes, como tinha prometido. Contudo, nunca mais se viram...

Na proa...

- Capitão, temos quase todos os passageiros nos barcos de salvamento.

- Tens a certeza?

- Bem, haviam aqueles dois, mas estavam a ter “aquela conversa” e...sei lá...decidi não entrar...

- Ah, “aquela conversa”...

- Sim...

- Oh...pois, quer dizer...é melhor não termos nada a ver com isso...

- Eles devem saber o caminho...

- Olha, eu cá só sei uma coisa, que não os queria no meu barco!

Os dois começam-se a rir e caminham em direcção aos barcos de salvamento.

- Capitão, você é o maior!

E o barco afundou-se lentamente nas águas geladas, selando, para sempre, os laços de uma amizade.

Etiquetas:

sexta-feira, julho 20, 2007

Experiência VI

- O que acha?


O director olha para as fotos. Está sério.


- Não sei o que lhe possa dizer.


O rapaz parece preocupado.


- Mas...mas eu dei tudo o que tinha para tirar essas fotos!

- Digamos que simplesmente não tem o talento.


O rapaz fica abatido, quase soltando uma pequena lágrima.


- É um jovem talentoso. Existem tantas carreiras que pode seguir, só tem de se concentrar numa.


O jovem limpa as lágrimas e retira as fotos da mão do director.


- Como posso ser alguém, se nem para prostituto infantil sirvo?


O director ri-se.


- O mundo da pedofilia é muito pequeno, e esse teu rabo é demasiado grande.

Numa carrinha, algures no exterior, dois agentes escutam a conversa.

- O que é que ele disse?

- Acho que disse “rabo”.

- Rabo? Dá-me a lista das palavras ofensivas.


O segundo agente passa um longo papel.


- Não está aqui nada sobre “rabo”.

- Mas ele mencionou alguma coisa sobre o tamanho.

- E meteu algum órgão sexual masculino ao barulho?

- Não, mas...

- Pensa desta forma, se calhar está só a fazer um pequeno comentário. A avisá-lo que realmente deveria fazer algum exercício.

- Isso não faz sentido. Nós temos dados suficientes que provam que ele faz parte da maior rede de pedofilia do mundo.

- Sim, mas foi o rapaz que lhe mostrou as fotos todo nú.

- Esse argumento é estúpido.

- Pode ser, mas não quero prender um homem inocente porque disse a palavra “rabo”.

- Ele está a tocar-lhe na perna. Temos de fazer qualquer coisa!


O primeiro agente fica em silêncio, pensativo.


- Tudo bem, mas tu é que preenches os papeis se tiveres errado!

De volta ao quarto.

- Realmente, os teus músculos das pernas são fortes. O que me faz mais confusão é que faço desporto há mais de 20 anos e não consigo ter uns músculos assim.

- Se calhar é a idade, já não é um homem novo.

Os dois agentes entram pelas janelas do quarto.


- QUIETO!

- LARGA A MERDA DAS FOTOS!

- O que é que eu fiz?!

- Estás preso por tráfico de fotografias pornográficas!

- Mas...como é que descobriram??

Neste momento, o rapaz começa-se a rir.


- Fui eu.

- Tu?!

- Sim, eu. Porque na verdade, eu sou o agente Domingos, da 3ª esquadra.

Naquele momento, Domingos retira a máscara de rapaz inocente, ficando com um físico de um homem de 40 anos, ainda por cima de bigode.


- Levem-no, rapazes!


Os agentes levam o homem para a carrinha, mas antes de sair do quarto, consegue ainda gritar para Domingos.


- Como é possível ser esse rapaz da fotografia, é impossível!


Domingos ri-se, pega novamente nas fotos.


- Porque é o meu filho.

Etiquetas:

quinta-feira, julho 05, 2007

Experiência V

Do palco, um homem olha para a plateia. Tem uns olhos tristes, mas profundamente verdadeiros.

- Meu caros colegas, a vida é uma simples necessidade que temos em relação à leis do Universo. É tudo aquilo que se junta e se forma conforme a nossa vontade.

As pessoas parecem chocadas. Do meio da plateia, levanta-se um homem com uma pistola na cabeça.

- Está errado, meu bom homem. A vida é tudo o que passou, sendo revista através das imagens guardadas nos nossos olhos. É o vazio completo que guarda a minha alma, e aquilo que me faz querer desaparecer.

O homem do palco olha para as suas mãos, que vão ficando cheias de sangue. Leva-as à cara e cobre os seus olhos.

- Agora vejo a verdade. O mundo é vermelho, a vida é sangue.

Todas as pessoas levantam-se, viram as costas, em simultâneo, para o pobre homem.


- (em coro) Nada podemos ouvir, pois nada pode vir do vermelho.

O homem baixa a pistola e chora.

- Então a vida não pode ser ouvida ou percebida. Quem sou eu?

As luzes apagam-se. Do fundo da sala, dois jovens caminham em direcção ao palco. Não se olham.
O homem no palco desaparecer lentamente na escuridão da cortina preta. Ao chegarem ao palco, duas luzes focam os jovens, que estão de costas um para o outro.

- Quem somos nós, se não os restos daquilo que vocês produzem? Quem somos nós, se não aqueles que morrem todos os dias da neutralidade da vida citadina e comercial?

- Somos o Nada, a verdadeira essência da vida. Estar silencioso é estar morto, e todos nós nos calamos.

- Estamos todos mortos.

As duas luzes apagam-se e a sala fica num completo silêncio. Aparece lentamente FIM.

--------------------------------------------------------------------------------------------

As luzes da sala de exibição acendem. No fundo da sala, está sentado Manuel Barros, professor de cinema. Mesmo na primeira fila está um aluno de cinema atento, fumando um longo cigarro melancólico, envolto num construtivo pensamento global da vida. Vira-se para trás, lentamente.

- O que achou, professor?

- (esfrega os olhos) Bem, isto é sobre o quê?

- O que poderia ser? Claro que todo o ser humano tem o direito de saber aquilo que vê através de ele mesmo. Quem somos nós, artistas, para condicionarmos o bem mais precioso da vida humana.

Manuel olha para o aluno.

- Não respondeste à minha pergunta...

- Penso que respondi, professor. Para mim, cada um pode interpretar a minha obra como quiser.

- Sim, mas agora quero saber a tua visão.

- Qual foi a sua interpretação?

- Não estamos a falar de mim...mas...

- Eu tenho o direito de saber, não achas? Até porque estou a ser aliviado.

Manuel ajeita-se. Guarda o caderno de apontamentos na mala e levanta-se. Prepara-se para sair.

- É sobre o crescimento da vida enquanto adolescente, onde todas as nossas questões parecem vazias para alguns, e, por isso, a maior parte dos jovens não diz aquilo que sente. Isto é o grito de revolta. O que achas?

- Acho que cada vez odeio mais alunos de cinema...

Etiquetas:

terça-feira, maio 29, 2007

Experiência IV

Rodrigo vira-se rapidamente e dispara contra o peito de Jorge, que cai no chão. Matilde grita com todas as suas forças, pois o seu amor estava agora morto. Depois de tantas lutas, a chama de Jorge estava apagada para sempre. Rodrigo volta a esconder a arma e aproxima-se do corpo de Jorge. Retira-lhe a carteira e olha para Matilde:
- Como prova.
Matilde limpa as lágrimas e levanta-se.
- Quem lhe pagou?
Rodrigo vira as costas para Matilde.
- Alguém que lhe quer bem.
Matilde fica fora de si, aproxima-se rapidamente de Rodrigo e agarra-lhe o colarinho.
- Como pode alguém gostar de mim, se quis levar o amor da minha vida? Como pode alguém sacrificar o amor de duas pessoas pelo seu próprio amor? É um monstro!
- Minha senhora, não me compete dizer quem está certo e quem está errado. Só me pediram para levar a carteira do cavalheiro, nada mais.
Matilde recomeça a chorar. Afasta-se de Rodrigo, surpreendida pela sua frieza.
- Como é possível? Como podem existir pessoas assim?
- Por mais que me possa custar ouvir os seus gritos de dor, o seu marido não passa de mais um molhe de notas que recebo, de mais um jantar que dou à minha familia.
- E fala você de familia? Eu...estou grávida do Jorge e agora você levou-mo!
Rodrigo começa a andar. Pára ao pé de uma velha árvore.
- Não há nada que lhe possa dizer, senão que...
Rodrigo carrega num pequeno botão, por detrás da árvore e todas as luzes se acendem, caem balões.
-...VOCÊ FOI APANHADA!
Jorge levanta-se e a equipa de filmagens revela-se por detrás das árvores. Vários figurantes saem de todos os lados e aplaudem a confusa Matilde. Rodrigo tira a máscara e revela ser o apresentador de televisão mais conhecido do momento, Roberto Mil Fontes. Aproxima-se de Matilde, que está completamente paralisada. Jorge tenta acordá-la.
- Minha jovem, olhe para as câmaras. É uma estrela, pelo menos durante esta semana. O que tem a dizer ao mundo?
Matilde olha para Jorge, que sabia disto tudo. Olha para a câmara, que faz um longo zoom na cara dela.
- Acho que perdi o meu filho.

Etiquetas:

sexta-feira, maio 11, 2007

Experiência III

- Não estou a perceber...
Juan afasta-se da janela. Olha para Carlos e senta-se numa das cadeiras.
- As portas giratórias foram feitas pelo governo para nos baralhar as ideias. A forma como elas giram fazem com que tenhas perdas de memória, principalmente quando vais a uma clinica.
Carlos está a ler uma pequena revista. Olha por cima dela.
- Porque tudo isto é uma conspiração, certo?
- Nunca pensaste para onde é que vão as nossas amostras de sangue? (Juan levanta-se) Eles criam clones para depois substituir-te. Já ninguém quer saber se morres ou não, eles apenas te substituem.
Carlos fecha a revista e atira-a para o chão. Aproxima-se da mesa e pega na pasta preta. Caminha para a janela e os primeiros raios de luz aparecem no horizonte.
- Ainda bem que não me despedi da minha mãe.
Juan começa-se a rir. Olha para Carlos, que se encosta à janela.
- Primeira página?
Juan acena com a cabeça. Carlos sorri e deixa-se cair. Passados uns segundo, ouve-se uma enorme explosão, mas Juan não parece preocupado. Estica os braços, retira o casaco e caminha para a janela contrária.
- Amanha vou gostar de ler as noticias.
Deixa-se cair e voltamos a ouvir uma explosão. O sol espreita suavemente no horizonte, cada raio de luz distribui-se pela escuridão da noite, dando um novo equilibrio aos prédios frios da cidade. A poeira cinzenta só nos faz lembrar do quanto é bonito ver o amanhecer.
(ouvir este texto com - Eternal Birds, dos North Sea - é para ser diferente)

Etiquetas:

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Experiência II

- Tens aquilo que eu te pedi?

- Conforme aquilo que tu queiras que eu tenha...Tenho muito mais do que isso.

- O quê?

- O amor, por exemplo.

- Não me venhas com essas conversas...chegou a noite em Lisboa.

- Nunca me esqueci daquele prato que cozinhaste. Ainda o consigo saborear.

Joana afasta-se de Tomás. Deixa cair lágrimas de saudade, que rapidamente apanha com a mão. Tinha sido fraca uma vez, mas nunca lhe daria o prazer de a ver chorar. Não depois do que ele lhe fez.

- Tens aquilo ou não?

- Eu sei que me amas.

Tomás avança, mas Joana afasta-se rapidamente, deixando os braços de Tomás abraçar o vazio, a saudade de uma relação que ele estimou há uns anos atrás. Não tinha feito de propósito, foram apenas negócios.

- Deixa-me ao menos sentir-te. Não quero que os nossos negócios nos separem.

- E aquilo que aconteceu? Já te esqueceste? Está tudo acabo, deixa-me em paz!

- Não, nunca me esqueci. Eu sei o que fiz e vivo em puro arrependimento desde esse dia. O dia em que perdi aquilo que me era mais valioso, ficaste marcada no meu coração, miúda.

Joana não consegue controlar as lágrimas e as saudades, o amor que sentia por aquele homem eram maiores que a sua raiva. Ela amava aquele homem e queria que ele o abraçasse.

- Tens aquilo ou não?

- Porque não choras?

- Porque não choro desde o dia em que me deixaste e jurei que nunca mais o faria!
Tomás pára e olha para Joana.

- Perdoa-me.

- Não posso...

Tomás agarra Joana.

- Imploro-te! Perdoa-me. É o que eu mais quero neste mundo. Mesmo que não me possas amar outra vez, deixa-me saber que me perdoas para que a minha vida volte a fazer sentido.

- Mas eu ainda te amo...

Tomás olha Joana nos olhos. Sorri. Limpa-lhe as lágrimas dos olhos e beija-a. Joana responde e naquele momento eles eram apenas um. Estavam unidos desde aquela noite e iriam ficar assim para sempre. Até que...

- Mas...outra vez nestas merdas? Porra, já é a segunda vez que vos aviso! Dás-lhe a merda da coca-cola ou é preciso que eu ta tire ao soco, meu cabrão?

- Desculpe, patrão!

- Desculpe? Andas é a gozar com a minha cara! Vai já trabalhar, senão despeço-vos!

Tomás e Joana separam-se novamente, mas tanto um como o outro sabe que será apenas por uns momentos...pelo menos até ao momento em que seja a vez de Toma´s trabalhar nas caixas juntamente com Joana. Um casal finalmente reunido. O patrão, por sua vez, segue com a sua inocente vida.

- Boa tarde e bem vindo ao McDonalds.

Etiquetas:

domingo, janeiro 14, 2007

Experiência I

- Sabes, quando vinha acaminho do café encontrei um homem muito suspeito. Estava sempre a gritar e a atirar-se para cima das pessoas. Que estranho que era aquele homem...(risos).

Alberto pega na sua coca-cola e olha para Francisco.

- Ele estava a arder.

- Sim.

- E não fizeste nada para o ajudar?

- Deves estar a pensar que eu vou dizer que me ia queimar e que por causa disso não o ajudei, mas eu não sou assim tão insensivel!

- Eu nem estava a pensar em nada.

- A sério?

- Não.

Os dois pegam nas suas coca-colas e dão um golo. Francisco solta um suspiro e olha para a sua coca-cola.

- Eu adoro quando elas estão mesmo frescas.

- Fui eu que lhe peguei fogo.

Etiquetas: